O que você procura
você está no Hospital Esperança Recife
Hosp Israelita
Hosp Memorial São José
Hosp Assunção
Hosp Niteroi D'Or
Hosp Badim
Hosp Norte D'Or
Hosp Bangu
Hosp Oeste D'Or
Hosp Barra D'Or
Hosp Quinta D'Or
Hosp Bartira
Hosp Ribeirão Pires
Hosp Caxias D'Or
Hosp Rios D'Or
Hosp Caxias D'Or
Hosp SANTA LUZIA
Hosp Copa D'Or
HOSP SÃO LUIZ
Hosp e Mat Brasil
Hosp São Marcos
Hosp Esperança Olinda
Hosp Sino Brasileiro
Hosp Esperança Recife
Hosp Villa-Lobos
Hosp iFor
Hospital Copa Star
HOSPITAL REAL D'OR
HOSPITAL REAL D'OR
Mudar hospital

Artigos Cientificos


29/01/2019 - Aspirina e seu papel na prevenção de eventos cardiovasculares


 
Por *Luis Felipe Cicero Miranda
 
 
O Ácido Acetilsalicílico (AAS), conhecido popularmente como aspirina, tem efeitos antitrombóticos que ve^m da inibic¸a~o irreversi´vel da ciclo-oxigenase-1 e consequente bloqueio da si´ntese do tromboxano A2, reduzindo, dessa forma, a agregação plaquetária. Seu benefício na proteção cardio e cerebrovascular em pacientes portadores de doença aterosclerótica clinicamente manifesta está muito bem estudado e solidamente estabelecido em mais de 200 ensaios com uma população superior a 200.000 pacientes1. Em contrapartida, observa-se um aumento nas taxas de sangramento digestivo e sangramento maior extracraniano, mas de menor magnitude, mantendo o efeito positivo de seu uso rotineiro nessa população, numa estratégia conhecida como prevenção secundária, sendo, portanto, consenso sua prescrição por tempo indefinido.


Menos evidente é seu benefício na prevenção primária, ou seja, populações com risco elevado para desenvolvimento de doença aterosclerótica em 10 anos, mas ainda sem doença estabelecida, não havendo consenso em sua utilização rotineira, nem mesmo entre as recomendações das principais diretrizes internacionais.

 
Enquanto na América do Norte seu uso é recomendado entre 50 e 59 anos se o risco de sangramento for baixo, considerando os possíveis benefícios da prevenção cardiovascular e do câncer colorretal, na Europa ele é fortemente desencorajado pelo risco de complicações hemorrágicas sem o claro benefício da redução de eventos isquêmicos2-3. Também a Sociedade Brasileira de Cardiologia não recomenda seu uso rotineiro4.


Muitos são os ensaios clínicos e metanálises que tentaram determinar o papel da Aspirina na prevenção primária ao longo dos últimos 30 anos. Nesses estudos foi postulado um possível benefício na redução de infarto do miocárdio em homens e acidente vascular encefálico em mulheres, embora insuficiente para uniformizar as recomendações acerca de seu uso5-9. Em 2018, a publicação de três novos estudos randomizados multicêntricos parecem ter ofuscado de vez o papel da Aspirina na prevenção primária.


O estudo ARRIVE avaliou o uso da Aspirina para reduzir eventos vasculares numa população de risco cardiovascular intermediário, mas a incidência de eventos foi menor do que a esperada, o que levou ao questionamento da real classe de risco da população estudada já que esse fato a aproximava muito mais de populações de baixo risco onde o benefício do uso rotineiro de Aspirina parece inexistir. Sem surpresa, o estudo foi considerado negativo, tendo revelado maiores taxas de sangramento gastrointestinal e nenhuma proteção cardiovascular com o uso da Aspirina10.


Duas populações consideradas de mais alto risco e que sempre estiveram no foco da prevenção da doença cardiovascular aterosclerótica são os pacientes diabéticos e idosos. Vários estudos elegeram esses subgrupos para avaliar a proteção da Aspirina, mas novamente não foram capazes de confirmá-la. Publicado este ano, o estudo ASCEND avaliou a Aspirina em diabéticos e mostrou benefício nos primeiros anos do acompanhamento, mas o excesso de complicações hemorrágicas que se acumularam ao longo do estudo contrabalançou os desfechos, tornando o estudo neutro em seu resultado11.


Também em 2018 foram conhecidos os resultados do estudo ASPREE, onde uma população de idosos saudáveis (média de idade de 74 anos) foi tratada primariamente com Aspirina ou placebo para avaliar proteção contra incapacidade física ou demência e novamente não houve diferença entre os grupos. Por outro lado, um excesso de sangramento maior foi observado com o uso de Aspirina e mortalidade
por câncer colorretal o que não deixa de ser um achado surpreendente, mas que necessita de confirmação com estudos endereçados a esta questão12.

   
Também a dose utilizada para tratamento a longo prazo já foi motivo de muita investigação, e o conceito de que maior a dose maior o risco de sangramento está bem estabelecido, ficando a faixa terapêutica entre 75 e 150 mg/dia a que confere maior benefício ao menor risco13.


Concluindo, Aspirina na prevenção secundária é tratamento de primeira linha e deve ser usada sempre e continuamente, quando não há uma clara razão do contrário. Já aqueles pacientes de alto risco, sem evento cardiovascular precedente, representam um grande desafio na sua utilização. É possível que haja, entre esses indivíduos, aqueles que podem se beneficiar de seu uso, mas identificá-los com precisão é mandatório para que não nos afastemos do princípio básico da medicina: “Em primeiro lugar, não prejudique.”

    
Referências bibliográficas:

1. Antithrombotic Trialists’ (ATT) Collaboration. Aspirin in the primary and secondary prevention of vascular disease: collaborative meta-analysis of individual participant data from randomised trials. Lancet, 2009. 373: 1849–60.
2. BIBBINGS-DOMINGO, K. Aspirin use for the primary prevention of cardiovascular disease and colorectal cancer: U.S. Preventive Services Task Force recommendation statement. Annals of Internal Medicine, 2016. 164: 836–45.
3. PIEPOLI, M.F.; HOES, A.W.; AGEWALL, S.; et al. 2016 European Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practice: The Sixth Joint Task Force of the European Society of Cardiology and Other Societies on Cardiovascular Disease Prevention in Clinical Practice (constituted by representatives of 10 societies and by invited experts) Developed with the special contribution of the European Association for Cardiovascular Prevention & Rehabilitation (EACPR). European Heart Journal, 2016. 37: 2315–81
4. FALUDI, A.A.; IZAR, M.C.O.; SARAIVA, J.F.K.; et al. Diretriz brasileira baseada em evide^ncias sobre prevenc¸a~o de doenc¸as cardiovasculares em pacientes com diabetes: posicionamento da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2017. 109(6Supl.1):1-31 
5. Steering Committee of the Physicians’ Health Study Research Group. Final report on the aspirin component of the ongoing Physicians’ Health Study. Steering Committee of the Physicians’ Health Study Research Group. The New England Journal of Medicine, 1989. 321: 129–35 
6. RIDKER, P.M.; COOK, N.R.; LEE, I.M.; et al. A randomized trial of low-dose aspirin in the primary prevention of cardiovascular disease in women. The New England Journal of Medicine, 2005; 352: 1293–1304 
7. Peto R, Gray R, Collins R, et al. Randomised trial of prophylactic daily aspirin in British male doctors. British Medical Journal, 1988; 296: 313–16 
8. HANSSON, L.; ZANCHETTI, A.; CARRUTHERS, S.G.; et al. Effects of intensive blood-pressure lowering and low-dose aspirin in patients with hypertension: principal results of the Hypertension Optimal Treatment (HOT) randomised trial. Lancet, 1998;
351: 1755–62 
9. BERGER, J.S.; RONCAGLIONI, M.C.; AVANZINI, F.; et al. Aspirin for the primary prevention of cardiovascular events in women and men. JAMA, 2006. 295: 306–13 
10. GAZIANO, J.M.; BROTONS, C.; COPPOLECCHIA, R.; et al. Use of aspirin to reduce risk of initial vascular events in patients at moderate risk of cardiovascular disease (ARRIVE): a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet Published online August 26, 2018. 
11. The ASCEND Study Collaborative Group. Effects of Aspirin for Primary Prevention in Persons with Diabetes Mellitus. NEJM, 2018
12. MCNEIL, J.J.; WOODS, R.L.; NELSON, C.M.; et al. Effect of Aspirin on Disability-free Survival in the Healthy Elderly. NEJM published on September 16, 2018 
13. Antithrombotic Trialists’ Collaboration. Collaborative meta-analysis of randomised trials of antiplatelet therapy for prevention of death, myocardial infarction, and stroke in high risk patients. BMJ, 2002; 324: 71–86.
 
* Médico da Unidade Cardiointensiva do Hospital CopaStar | Médico na Unidade Coronariana do Instituto Nacional de Cardiologia


Desenvolvido por Connexion Net